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Mais um navio da Marinha em fim de vida. Corveta João Roby vai ser abatida

  • 2020-02-26


Depois do reabastecedor Bérrio, agora é a corveta João Roby na lista de navios a abater. O Estado-Maior da Armada diz que "é urgente" a construção dos novos patrulhas oceânicos.

Este ano é a segunda vez que o Estado-Maior da Armada confirma o abate de um navio. No final de janeiro, foi o grande navio reabastecedor Bérrio , agora é uma das duas únicas corvetas, ainda em missões de segurança e busca e salvamento, a ter os dias contados. Trata-se da NRP João Roby, ao serviço da Marinha desde 1975.

O porta-voz oficial do chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA) adiantou ao DN que em relação a esta corveta se "prevê o início do processo de abate a curto prazo". A outra corveta ainda a navegar, a NRP António Enes, ao serviço desde 1971, está também "no limite do ciclo de vida", de acordo com a mesma fonte. A "esperança" de vida dos navios, acrescenta, "está nos 30/35 anos e estas corvetas já se aproximam dos 50".

Esta situação vem dar razão aos alertas dos generais, ex-chefes de Estado-Maior dos Ramos - descritos numa carta enviada ao Presidente da República - sobre a situação de "pré-falência" das Forças Armadas e declínio das capacidades operacionais. Apesar de os responsáveis dos Ramos não terem querido facultar ao DN dados que pudessem corroborar a preocupação dos generais na reserva, a situação da Marinha é ilustrativa.

À medida que eram abatidas, as corvetas deviam ter sido substituídas pelos navios-patrulha oceânicos (NPO), mas acabou por não ser ao mesmo ritmo. A reposição não tem sido cumprida

Inicialmente a Marinha tinha dez corvetas e atualmente são apenas estas duas. "À medida que eram abatidas, as corvetas deviam ter sido substituídas pelos navios-patrulha oceânicos (NPO), mas acabou por não ser ao mesmo ritmo. A reposição não tem sido cumprida", diz este porta-voz. Neste momento apenas existem quatro NPO e não foi ainda assinado o contrato com os Estaleiros de Viana do Castelo para se avançar com novos navios. Em junho do ano passado, o ministro da Defesa Nacional, João Gomes Cravinho, anunciou que iria "começar a trabalhar nos contratos e na adjudicação" de seis NPO, uma vez que já tinha sido publicada a Lei de Programação Militar (LPM).

Este tipo de navio - batizado com o nome do 1º tenente da Marinha João Borges de Faria Machado Pinto Roby, que morreu ao serviço do país em África - é usado em missões de segurança marítima e salvaguarda da vida humana no mar - patrulha e vigilância no espaço marítimo sob jurisdição nacional, ZEE (Capacidade Oceânica), missões de Busca e Salvamento (SAR - Search and Rescue), proteção e fiscalização da pesca e dos seus recursos, execução de ações de socorro e assistência em situações de calamidade ou acidente, participação em exercícios nacionais e internacionais, conjuntos e combinados e missões e exercícios de combate à poluição.

No ano passado, a João Roby esteve em alto mar com a Polícia Judiciária, numa operação em que foram apreendidas 2,5 toneladas de cocaína (avaliadas em 125 milhões de euros), da qual resultaram 11 detidos apanhados num rebocador do Panamá, em águas internacionais.

Prazos de manutenção em derrapagem

"Torna-se urgente a construção dos novos navios-patrulha oceânicos, previstos na LPM e cuja missão é a busca e o salvamento, assim como a vigilância e a patrulha nas águas sob soberania, jurisdição e responsabilidade nacional", sublinha esta fonte oficial do gabinete do CEMA, almirante Mendes Calado.

De acordo com a Marinha, além das duas corvetas, "adicionalmente, alguns navios de menor dimensão, como lanchas de fiscalização rápidas e lanchas hidrográficas costeiras, também se aproximam do fim do ciclo de vida". Os sucessivos atrasos nos prazos para a manutenção dos meios ainda operacionais é motivo de grande apreensão.

A manutenção dos navios da Marinha constitui uma das nossas preocupações centrais, procurando inverter a tendência dos últimos 15 anos de acumulação de défice de manutenção dos meios navais

"A manutenção dos navios da Marinha constitui uma das nossas preocupações centrais, procurando inverter a tendência dos últimos 15 anos de acumulação de défice de manutenção dos meios navais. Tem sido desenvolvida uma linha de ação que garanta que os novos meios cumprem na íntegra os ciclos de manutenção previstos", diz o porta-voz do ramo.

Relativamente às corvetas, por exemplo, "os atrasos de manutenção variam entre um a três anos". A Marinha explica que "em virtude de se encontrarem no limite do seu ciclo de vida, não se considera economicamente viável continuar o ciclo de manutenção completo, optando por intervenções de média duração que permitam o cumprimento do planeamento operacional aprovado".

Quanto às lanchas de fiscalização costeira e hidrográfica, a situação é ainda mais grave: "Face ao défice de manutenção acumulado, que varia entre dois e nove anos, têm sido efetuadas avaliações de condição periódicas, de forma a manter a sua operacionalidade através de pequenas e médias intervenções, dentro dos recursos financeiros disponíveis."

Ainda à espera do Polivalente Logístico

Segundo a mesma fonte oficial, o reabastecedor Bérrio, "já entrou em processo de abate", não tendo ainda sido encontrada solução a curto prazo para a sua substituição. A LPM só prevê a aquisição de um novo navio reabastecedor em 2027. Sem este navio, fundamental para a sustentação e apoio logístico das forças navais portuguesas, a Marinha ficou com a sua capacidade de projeção drasticamente limitada, pois não será possível apoiar navios a longas distâncias no mar - por exemplo, em casos de emergência civil, como o que aconteceu em outubro na ilha das Flores.

Presentemente, há apenas quatro navios fora de Portugal. Além de duas fragatas em reparação na Holanda, o veleiro Sagres está a fazer a circum-navegação nas comemorações dos 500 anos da viagem de Fernão de Magalhães e o navio-patrulha Zaire, envolvido num programa de cooperação com a guarda costeira de São Tomé e Príncipe, a reforçar a segurança marítima na região.

De acordo com os dados oficiais do Estado-Maior da Armada, estão neste momento ao serviço um total de 34 embarcações: descontando já o Bérrio e a João Roby, há 10 lanchas de fiscalização rápida, nove das quais, a entrar em fim de vida; 2 lanchas hidrográficas, também a atingir limite de idade operacional; 5 fragatas; 4 veleiros; 4 patrulhas oceânicos; 3 patrulhas costeiro da classe Tejo cacine (mais um em reativação); 1 patrulha costeiro classe Cacine (eram 10); 2 submarinos; 2 navios hidro-oceanográficos; 1 corveta (já foram 10) a atingir final de vida.

Outra decisão que também tarda é como será feita a aquisição daquele que será o porta-aviões da Armada - o Navio Polivalente Logístico (NPO). Na Lei de Programação Militar está prevista a sua compra a partir de 2024, mas tendo em conta a redução drástica do investimento (passou de 310 milhões para 150) ainda não está decidida a estratégia de compra. Em maio de 2019, João Gomes Cravinho afirmou que este navio "será adquirido a partir de 2022" e que havia tempo para ponderar se será melhor comprá-lo "em segunda mão" ou "construí-lo, de preferência, aqui em Portugal".

Segundo o porta-voz oficial da Marinha, este navio "é autossuficiente" e pode navegar para águas internacionais sem necessidade de um reabastecedor.

O DN questionou nesta semana o Ministério da Defesa sobre o navio polivalente logístico e o atraso na substituição das corvetas para busca e salvamento. "Quanto à aquisição do navio polivalente logístico, a mesma está contemplada na Lei de Programação Militar em vigor. A dotação prevista é de 150 milhões de euros e esta verba encontra-se englobada na rubrica das capacidades conjuntas, no anexo da referida lei", respondeu o gabinete do ministro Gomes Cravinho. Não respondeu em relação às outras questões.

Melo Gomes: "Não há coerência política"

O ex-CEMA, almirante Melo Gomes, que já tinha classificado de "catastrófico" a perda do único reabastecedor, reforça agora o seu alerta face ao desfalque de meios da Marinha. "É a morte, tantas vezes anunciada, da Marinha e do próprio país conforme sempre o conhecemos", dramatiza Melo Gomes, que foi um dos subscritores da missiva enviada a Marcelo Rebelo de Sousa, Chefe Supremo das Forças Armadas. Este oficial, que chegou a comandar a João Roby, não esconde a sua "tristeza".

Num momento em que Portugal está a discutir da ONU o alargamento da sua plataforma continental muito para além das atuais 200 milhas, ao mesmo tempo não se atua a tempo para ter os meios necessários para exercer a soberania sobre esse novo espaço marítimo. Não há qualquer coerência política

"Num momento em que Portugal está a discutir da ONU o alargamento da sua plataforma continental muito para além das atuais 200 milhas, ao mesmo tempo não se atua a tempo para ter os meios necessários para exercer a soberania sobre esse novo espaço marítimo. Não há qualquer coerência política. Alarga-se a plataforma continental e deixa-se morrer os navios", assevera.

Na mesma intervenção de maio do ano passado, o ministro João Cravinho mostrou que também tinha essa preocupação. "Nós temos responsabilidades tremendas em termos de vigilância do nosso espaço marítimo, vamos ter um alargamento da plataforma continental que resultará numa plataforma continental 44 vezes o tamanho de Portugal, e isto significa que precisamos de ter meios navais adequados", afirmou.

Carta a Belém. Ramos em silêncio

Nem Exército, nem Força Aérea nem a Marinha mostram factos que confirmem ou neguem a denúncia de "pré-falência" das Forças Armadas (FFAA) descrita numa carta que um grupo de generais, ex-chefes de Estado-Maior dos três ramos, enviou ao Presidente da República.

"Processo de desconstrução e pré-falência", "dificuldades inéditas", "mínimos" de efetivo "nunca verificados", "situação em geral grave, mas no caso do Exército é de emergência institucional", "dificuldades de sustentação e manutenção" - são alguns dos factos elencados.

Questionados nesta semana pelo DN sobre essa situação e solicitados dados sobre a evolução do efetivo na última década, bem como o estado das capacidades operacionais, a resposta foi unânime: "não vamos facultar esses elementos", respondeu a porta-voz do Exército; "não conseguiremos disponibilizar a informação que solicita", disse o porta-voz da Força Aérea; "não conte com contributos da Marinha", assinalou o porta-voz deste Ramo. No caso do Estado-Maior da Armada, a informação cedida ao DN sobre a corveta João Roby e o estado geral dos navios, foi enviada antes de ser noticiada a carta dos generais.

Recorde-se que Marcelo Rebelo de Sousa, Comandante Supremo das Forças Armadas, respondeu aos generais, também numa carta onde lamentou que a "prioridade política" de valorização das Forças Armadas tivesse deixado "de existir há décadas" e se tenha "enraizado na sociedade portuguesa". "Perante este panorama, o que importa é não renunciar, não desistir", sublinhou.

FONTE DN/ Valentina Marcelino - Imagem - santamariaacores.net