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País perde mulheres na Defesa e nas tecnologias da informação

  • 2020-03-06


Comissão Europeia apresentou Estratégia para a Igualdade de Género. Em Portugal, o caminho faz-se de avanços e recuos. A segregação profissional emerge entre as prioridades.

A Comissão Europeia apresentou ontem a Estratégia para a Igualdade de Género para os próximos cinco anos. Um dos pontos-chave do documento é o combate aos estereótipos que limitam as aspirações profissionais de rapazes e raparigas. A segregação profissional é forte em Portugal, onde até está a diminuir a percentagem de mulheres nas Forças Armadas e nas tecnologias da informação e comunicação.

A disparidade persiste nos salários, nas pensões, nas tarefas domésticas, na prestação de cuidados, na partilha de poder. E há novos desafios — a digitalização e as alterações climáticas.

Sob o comando da comissária para a Igualdade, Helena Dalli, com o apoio de uma task-force, a estratégia 2020-2025 encerra uma abordagem dupla: acções específicas e incorporação da perspectiva de género em todas as políticas europeias. A comissão lançou uma consulta pública sobre transparência salarial e promete uma campanha contra os estereótipos.

Por esta altura, cada Estado-membro prepara uma forma de assinalar o Dia Internacional da Mulher, que se celebra na segunda-feira. Por cá, a secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Rosa Monteiro, vai fazer um balanço dos 25 anos da Plataforma de Acção de Pequim, que introduziu uma nova forma de pensar e trabalhar a igualdade, e focar-se na segregação horizontal. “Durante muitos anos, não foi considerado este problema, que é estruturante”, observa. “Temos falado mais na disparidade salarial e no acesso das mulheres aos cargos de decisão e percebemos finalmente que na base de grande parte destes problemas está o acantoamento de mulheres e homens no mercado de trabalho.”

Em Portugal, como noutros países, o caminho faz-se de avanços e recuos.

No panfleto preparado pelo Governo para assinalar os 25 anos de Pequim, que deu origem a um vídeo, percebem-se alguns desses ziguezagues.

Aumentou a participação de mulheres e de homens no mercado de trabalho e até baixou, embora se mantenha elevada, a disparidade na remuneração média, mas a segregação laboral não dá tréguas.

Exemplo disso é a Defesa. As mulheres representavam 10,2% das forças armadas em 2017. Em 2008, 13,3%. O Governo registou a quebra, tanto que criou um Plano Sectorial para a Igualdade da Defesa Nacional (2019-2021), o que inclui criar “equipamentos/estruturas de apoio à infância que contribuam para a conciliação entre a vida profissional, pessoal e familiar”.

Um dos problemas com que o sector se debate é a sucessiva diminuição de voluntários, essenciais desde que o país acabou com o Serviço Militar Obrigatório. Foi formado um gabine-te empenhado em atrair mais raparigas. “O Instituto de Defesa Nacional também está a preparar trabalho nesse sentido”, salienta. Curiosamente, a participação das mulheres nas missões internacionais das Forças Armadas está a crescer: passou de 5,4% em 2012 para 9% em 2017. A tendência é mais acentuada nas forças de segurança (de 2,1% para 14,3 em 2016), mas, como diz Rosa Monteiro, “o ponto de partida era outro”.

Não é uma extravagância. É uma Resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que admitiu o impacto particular que os conflitos armados têm sobre as mulheres e realçou a necessidade de assegurar a “sua participação nos mecanismos de prevenção, gestão e resolução de conflitos, bem como na manutenção e promoção da paz e segurança”.  

O problema fundamental está noutras áreas: 30% das mulheres e 7% dos homens trabalham em educação, saúde e serviço social; 9% das mulheres e 31% dos homens trabalham em tecnologias e engenharias.

Estudos recentes mostram que administrações mais paritárias tendem a ter mais consciência sobre protecção do ambiente - Instituto Europeu da Igualdade de Género

É nas tecnologias da informação e comunicação que se colocam muitas das fichas do crescimento económico e do emprego no futuro na União Europeia. Só cerca de 17% dos especialistas que trabalham no sector são mulheres. Em vários países, como Portugal, até tem diminuído o número de mulheres a entrar nestes cursos. Quando se olha para a evolução no conjunto de engenharias, matemáticas, ciências e tecnologias, Portugal até sai bem na foto- grafia internacional.

Quando se isola o sector das tecnologias da informação e comunicação, a percepção altera-se por completo: eram mulheres 21% das pessoas diplomadas na área em 2018; em 1999, 26%. No mercado de trabalho, também se nota a regressão: em 2018, as mulheres representavam 14% dos especialistas empregados; em 2004, eram 23,5%.

Não é que nada esteja a ser feito. O Governo criou um programa específico, o “Engenheiras por um dia”, destinado a atrair raparigas e mulheres para esta área. Envolve cerca de cinco mil estudantes por ano, levando às escolas dinâmicas que procuram mostrar que esta área também é para raparigas. Não se notam, pelo menos para já, os efeitos desse esforço nas matrículas.

A secretária de Estado sabe que isto “choca com a aparência de senso comum de que nada impede as raparigas de escolherem estas áreas”. “Há muitos factores que afastam as mulheres deste domínio. De tal maneira, que estamos hoje pior.”

À escala planetária, nota-se uma descida da percentagem de raparigas e mulheres a estudar e a trabalhar na área. “Há quem associe isto ao surgimento do computador pessoal e ao facto de ser sido muito vendido como objecto de rapazes e homens. Há um fortíssimo abandono de mulheres de grandes empresas. Poucas entram e, dessas, algumas acabam por “não resistir a culturas muito masculinas”.

“Não é só o assédio sexual, é um desconforto permanente que raparigas e mulheres sentem nestes contextos.” Isso tem um preço. “Com a estratégia europeia a seguir esta linha de prioridades e com o nosso trabalho muito alinhado com este objectivo, estaremos em condições de desvendar mais esta dimensão das desigualdades e começar a intervir de forma mais estruturada”, acredita Rosa Monteiro.

FONTE Jornal Público / Jornalista Ana Cristina Pereita / Foto Paulo Pimenta