Comunicado 03/06

06AGOSTO2006

Navios e gaiatos!

No cavername dos navios as historias que se acumulam, falam dos muitos Homens que fazem de uma amálgama de chapa a sua segunda casa e transformam guarnições nas suas segundas famílias. E é por isso que sempre se disse que não há ambiente nem espírito de camaradagem como o bordo. Aqui o “Um por todos e todos por um!” ganha real sentido em todos os aspectos. Os anos vão passando e as guarnições vão mudando, mas se os navios falassem muito teriam para contar e ensinar, em especial a todos os que anseiam por comandá-los.

Hoje já todos temos conhecimento que o nosso camarada Filipe (Cabo Artilheiro e Dirigente Associativo da APA) se encontra a cumprir uma pena de detenção de dez dias a bordo do NRP Baptista de Andrade, e temos também conhecimento do motivo que moveu o seu Comandante a aplicar-lhe tal pena – um protesto colectivo motivado por uma questão de solidariedade para com outros militares do mesmo navio, o qual é entendido como protesto individual apesar de o Cabo Filipe não ser directa ou indirectamente afectado pela razão com que se prendia esse protesto e onde afinal acabou por ser assim o único castigado na causa do nada.

Ora camaradas, não obstasse o facto de no auto de averiguações não ter sido ouvida nenhuma praça. Estranho? Talvez, talvez não! O objectivo já estava há muito traçado, temos ainda, a já triste moda de obrigar o arguido a cumprir a pena mesmo antes de decorrido o prazo de recurso, estamos pior do que antes do 25 de Abril, já que esta situação se passa num navio onde todo e qualquer um que informalmente abrir a boca para um camarada para dizer seja o que for, se sujeita a que sirva ao comando como prova incriminatória em processo sumário bem ao estilo do antigamente onde não sendo negado o direito de defesa o efeito é exactamente o mesmo que nada.

Parece mentira mas é verdade, conseguiu entranhar-se na chapa a podridão da falta de respeito pelas opções pessoais, pelo direito de opinião e pelo direito de expressão. Pior ainda, um castigo destes em tempos idos motivava qualquer guarnição de praças em defesa do espírito de grupo e contra este tipo de prepotência e absolutismo.

Como é vergonhoso e revoltante termos chegado a este ponto num navio onde com tantos e diversos problemas e avarias de séria gravidade (estando em causa condições básicas de sobrevivência no mar) ver qual é a ordem de prioridades e directivas – Castigar dirigentes associativos e se possível com a cumplicidade dos “camaradas”!

Deste modo lembraria, que os militares se regem por um regime disciplinar próprio (RDM) e que nesse sentido se observasse o cumprimento deste regime, nomeadamente na aplicabilidade do Artº. 2º no ponto 2:

“Os chefes, principalmente, e em geral todos os superiores, não devem esquecer, em caso algum, que a atenção dos seus subordinados está sempre fixa sobre os seus actos e que, por isso, a sua competência, a sua conduta irrepreensível, firme mas humana, utilizando e incentivando o diálogo e o esclarecimento, sempre que conveniente e possível, são meios seguros de manter a disciplina. Serão responsáveis pelas infracções praticadas pelos subordinados ou inferiores, quando essas infracções tenham origem em deficiente acção de comando.”

Um bom Comandante… não é aquele que necessita de andar com o RDM debaixo do braço para fazer prevalecer a sua autoridade.

Um bom Comandante… é aquele que através da sua liderança traduzida nos actos e decisões que toma, faz prevalecer a sua autoridade.

Camarada Filipe estamos contigo e não arredamos pé dos nossos princípios. Conta connosco e com a visita dos nossos camaradas, Praças da Armada, que estamos certos que marcarão presença ao longo destes dias até 12AGO. Estes castigos são mesmo as medalhas a que todos nós militares honrados e dignos e dirigentes associativos nos vamos habituando por de forma altruísta insistirmos em defender quem precisa.

Parabéns por também teres essa força estranha!

 

 

Lisboa, 06 de Agosto de 2006

 

O Presidente da Direcção,

  Luís Reis

 

Associação de Praças da Armada

Rua Varela Silva, Lote 12 - Loja B - Ameixoeira - 1750-403 LISBOA

E-Mail: direccao@apracas.pt